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terça-feira, 14 de novembro de 2017

SURPRESAS




           Quantas surpresas poderemos ter a cada dia? Na verdade, são incontáveis, porque elas nos chegam a cada instante! Cada momento é único! Nós os apreciamos, ou rejeitamos; nós é que os “colorimos”.  Mesmo os momentos mais rotineiros, são absolutamente únicos. Talvez não percebamos, porque estamos com o olhar míope, viciado na rotina, nos rótulos, nas “certezas”...  A capacidade de nos surpreendermos com o milagre constante de cada momento, decorre de nosso grau de abertura para a Vida. As surpresas não nos chegam somente de fora, mas de estarmos sensíveis ao momento.

            A cada instante posso “auscultar-me”: Como estou? O que me cerca agora (coisas, natureza, pessoas...)? Como estou pensando, sentindo, agindo, sobre o que vejo? O que posso “ver”, sentir e me surpreender? Por mais corriqueiro que sejam as paisagens, sabores e pessoas, memórias... o desafio interno é como vê-los de forma única, sempre nova. 

            Não são apenas as notícias, o inesperado dos fatos externos, que podem nos surpreender, mas também como reagimos a eles! As surpresas mais incríveis são as que temos conosco mesmos – boas ou más! Fazem parte de um “olhar” limpo, aberto, honesto, que vamos apurando em nosso processo de descoberta interior. 

            A Vida é movimento e estar vivo é se surpreender com esse movimento infinito, eterno...  “Estou vivendo muitos dias ou vivo  o mesmo dia sempre?”  Somos mutantes num mundo em constante mutação, onde tudo/todos estamos  e  nada é! Como não nos surpreendermos a cada instante?  Podemos “viajar” por nossas vidas, sonolentos, entediados, repetitivos, ou viajarmos, com o olhar de uma criança, atentos e entusiasmados com a paisagem sempre nova!...
Assim somos, assim é a vida. Um eterno e rico caleidoscópio que a cada instante se movimenta e modifica, trazendo-nos novas e incríveis figuras e surpresas. Vamos apreciá-las! 

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

NÃO OLHES PARA TRÁS




            Uma história muito antiga nos conta da recomendação feita pelo Senhor a um bom e justo homem e sua família: que  fossem embora para que pudessem ser salvos da destruição, para que pudessem sobreviver, mas que seguissem sem olhar para trás!... Eles que ficassem atentos à recomendação ou poderiam se transformar em estátuas de sal, sem vida. Sua esposa, no entanto, não conseguiu deixar de olhar para trás! Não por curiosidade, acredito, mas pela dificuldade de deixar pessoas queridas, sua cidade, suas lembranças... Ficou olhando tudo aquilo que se transformava em passado e, conforme predito, transformou-se em uma estátua salgada, sem vida... Essa é uma história muito antiga que, como tantas outras, nos permite diferentes leituras e entendimentos, mas me parece que o básico está na recomendação: Não olhes para trás!

            Como foi recomendado àquele bom homem e sua família, para seguirmos adiante, não poderemos ficar aprisionados no passado.      Não olhes para trás! O passado nos enfeitiça! Ficamos eternamente querendo modificá-lo, consertá-lo, fazê-lo melhor...  Querendo modificar os abusos, traições, maldades, que sofremos e que ainda nos trazem tanta raiva, humilhação, mágoa, tristeza, rancor, ressentimento... Querendo modificar os fatos cruéis que transformaram nossas vidas e parecem nos manter hipnotizados, revivendo o horror daqueles momentos... Querendo modificar nossos erros, omissões, que nos açoitam em culpas e vergonhas eternas...

         “Não olhes para trás”, porque o passado também guardou momentos maravilhosos, de puro enlevo, alegria, sucessos, amores e camaradagem e, muitas vezes, enfeitiçados, não queremos mais deixá-los, preferindo viver num limbo de lembranças, numa “vida de faz de conta”, sendo e vivendo em meio a fantasmas de nossa própria história...  

Não negaremos os amores, as dores, as injustiças, os sucessos, os erros, mas tudo ficou para no passado... Se insistirmos na recusa chorosa e teimosa de olhar para trás, ficaremos, como a esposa da história, paralisados, secos, salgados... Na verdade, trazemos em nós as marcas de tudo o que se foi. O passado está vivo em nós, mas não pode viver por nós. Não podemos acessá-lo em todo momento, paralisados, distraídos da Vida, de todas as possibilidades que um Poder Maior nos oferece a cada instante.

Quando o passado gritar, querendo por momentos emergir e explodir no peito, descansa e chora... Depois , levanta, olha em frente e em volta e Vive.  Os fatos negativos que nos marcaram e machucaram, irão ficando perdidos no tempo na medida em que nos distanciamos de suas memórias. 

             Mas o Amor que trouxemos e compartilhamos em nossa história é diferente! Somos feitos dessa Essência, independente de fatos, espaços e tempos. Podemos acessá-lo em todo momento ligando-nos a quem amamos no Agora!. Não precisamos voltar, olhar para atrás... Podemos atualizá-lo a cada instante, podemos manter contato com o quê e com  quem amamos no Agora, além do tempo e do espaço. O Amor não se detém, nem nos detém. Ele nos impulsiona a seguir... “O Amor é uma ponte para o sempre!”, transpõe quaisquer distâncias, mesmo as dimensionais...  Portanto, Não olhes para trás, disse o Senhor!   Apenas, ama e caminha!

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

RENÚNCIA E LIBERTAÇÃO




        Renunciar é abrir mão dos nossos apegos.  É soltarmo-nos  do que achávamos ser a base necessária à nossa vida. – nossas certezas, nossas verdades, nossas posses materiais, nossas fantasias do Outro, nossa própria auto imagem idealizada, nossas crenças e amores possessivos...

         A Dor  de nossas perdas materiais e intelectuais nos ensina a transitoriedade desses bens e nos leva a renunciar à agonia da busca desesperada pelo acúmulo de bens, títulos, excessos intelectuais, status, “sucesso” e poder... que nos envaidecem, mas não nutrem nossa dimensão maior e mais sutil e não nos livram do estresse e da depressão.Só a Dor de um vazio interior, só a aridez dessas posses, pode nos lembrar que precisamos renunciar aos excessos e descobrir a alegria do compartilhá-los

         Só a dor maior, que nos abate quando somos confrontados com  nossa impotência perante os outro;  só a dor de alguns desafios e perdas maiores da vida em nossas  relações afetivas (“mortes”, abandono, traições...) , pode nos levar a reconhecer que tudo aquilo a que nos apegamos não foi suficiente ou capaz de evitá-las.Eu queria garantir a posse das pessoas mais queridas para garantir minha felicidade de tê-las para sempre! Queria orientá-las, direcioná-las, decidir o que era bom para nós, cerceá-las por amor e cercá-las de cuidados. Mas, aprisionando-as no meu apego, fui perdendo-as e me tornando, eu mesma, prisioneira, carcereira, em nossa relação!   

           Só essa dor maior pôde me fazer perceber que não podemos possuir pessoas. Elas são Centelhas Vivas do Sagrado, únicas em sua individualidade, não são coisas, não podem ser possuídas!...  O Universo é paradoxal e, só renunciando à sua posse é que poderei atrair aqueles que amo para mim! Preciso libertá-las da minha  agonia e luta, para melhor amá-las e ser amada.

            Renunciar é um ato de Libertação. É um ato de Amor a nós mesmos e aos outros, por isso é um ato espiritual!  Um ato que nos liberta das lutas e traz em troca, para ocupar esses vazios, a entrega a sentimentos, pensamentos e comportamentos de um nível mais sutil e amoroso.   Precisamos caminhar leves, para ter alegria no caminhar e descobrir a alegria do compartilhar.


quinta-feira, 26 de outubro de 2017

REPARAÇÃO




          O processo de gradativa tomada de consciência do que fomos e de nossa história, nos leva a uma revisão de nossas crenças, pensamentos, sentimentos e atitudes. Traz lembranças boas e positivas e também nos leva ao reconhecimento de nossos erros e à descoberta de alguns de nossos defeitos. E não é fácil admitirmos erros sem logo tentar justificá-los com as atitudes dos outros. Foi assim que aprendemos a nos defender e contra atacar! Mas a tomada de consciência é um processo totalmente interior, que requer Honestidade e Aceitação.

            A princípio, ficamos relutantes e humilhados pelo que de “ruim” reconhecemos em nós. Afinal, gostaríamos de ser melhores, sem mesquinharias, sem covardias ou maldades. Mas, para podermos avançar em nosso processo de auto conhecimento, precisamos parar de lutar, negando, e aceitar o que é real, mesmo sem gostar.

Acabamos por admitir, envergonhados e “escondidos”, para um  Deus amoroso, os nossos erros! Depois, encorajados pela força da Verdade e da necessidade de sermos verdadeiros, admitimos esses erros, compartilhando-os, também com outras pessoas de nossa confiança.  “A Verdade vos Libertará” – podemos sentir isso em nós, em nossa mente e em nosso coração! 

Mas, a Verdade em ação pede Reparação. É necessário então admitir nossos erros para aqueles a quem prejudicamos, a quem magoamos...  Esse momento é muito difícil para nosso orgulho. É o momento em que precisamos caminhar da humilhação para o aprendizado da Humildade. E como nos sentimos inseguros de nos expormos, de “quebrar” nossa imagem de o mais certo, o mais forte, o superior...! Preferíamos ser, nós mesmos, a nos julgar, nos condenar, sem contudo ter que nos expor à mágoa e indignação  dos prejudicados.

Nesse processo é muito importante estarmos atentos a nós, porque o mais importante é a nossa tomada de consciência e a nossa mudança! O que me leva à reparação, a buscar reparar erros e me transformar? Como estão minha vaidade, meu orgulho, minha culpa, minha raiva e meu medo ao me expor? Entendo e aceito que podem não me desculpar? Quero apenas me aliviar? Até parecer “superior”? Procuro mudar somente minhas atitudes, porque ainda tenho muita dificuldade de me desculpar por palavras? Tudo isso acontece em mim... 

               Esses questionamentos fazem parte do meu processo de me descobrir, reparar e transformar, antes de mais nada, quem eu fui e quem eu estou buscando ser como indivíduo e em minhas relações.

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

SOLIDÃO CRESCENTE




          Em geral, quando nascemos somos cercados de pessoas e cuidados. Com o passar do tempo, ainda na infância e juventude, ocupamos  familiares, que acompanham nossas necessidades e cuidam de nosso desenvolvimento. Com eles, e também com colegas e amigos, curtimos essas fases alegres e aventureiras de nossas vidas.  Mais tarde nos apaixonamos, escolhendo  companhias novas para novas etapas. Casamos, muitas vezes até recasamos, e preenchemos ainda mais nossas vidas com filhos, enteados, depois com netos...  Tínhamos uma vida ocupada por todos eles e por trabalho, muito trabalho. Cuidávamos de tudo e de todos:  foram sustos, desafios, momentos alegres, outros tristes, mas estávamos sempre acompanhados (às vezes até demais!)...  A vida era cheia e nos sentíamos fortes e úteis! 

Mas o tempo não para, e passando, foi levando de nossa companhia aqueles que primeiro nos amaram e cuidaram... Foram perdas muito dolorosas, mas estávamos muito ocupados, chamados pela vida, e só mais tarde pudemos avaliar melhor o tamanho do vazio que nos deixaram aquelas perdas.

            Depois, os filhos casaram e se foram... Nos agarramos aos netos, buscando ainda ser úteis, mas também eles cresceram e se foram, no processo natural da vida. A casa ficou grande, sobraram vazios... Vazio deles e de suas vozes tão queridas! Buscamos pretextos para nos encontrarmos, tentando estar com eles em eventos familiares, onde, cada vez mais, fomos nos sentindo  meros observadores, algo deslocados e nostálgicos...E ficava  uma gritante sensação de sermos incômodos, mesmo queridos, e ainda trazendo “culpa” aos mais jovens... 

            Nosso tempo de trabalho ativo passou, fomos  aposentados. Agora, sobrava tempo, mas faltaram as amizades que, aos poucos, foram ficando na distância e nos contentávamos com pequenos encontros, em repetido compartilhar de lembranças...  E, como aconteceu com a perda de nossos pais e avós, agora víamos, algo assustados, “nossa turma”, ser “chamada” ... e nos deixar! Procuramos outras atividades que pudessem nos manter ativos, mas até elas foram, aos poucos, diminuindo pelo nosso próprio declínio físico. Já não cuidávamos, agora tínhamos “cuidadores” ! Queríamos falar, trocar ideias, mas, impacientes, já não queriam nos ouvir, porque estávamos “ultrapassados”... 

Nossos companheiros foram nossos testemunhos e parceiros. Quando os perdemos o silêncio cresceu ainda  mais e um terrível sentimento de abandono passou  a gritar à nossa volta... Então, só restam lembranças, tantas lembranças... Da infância, da juventude, da mocidade, onde tudo era vida, possibilidade e movimento. Agora, só por companhia essas lembranças de uma vida perdida no  passado e as limitações cada vez maiores ocupando um presente muito solitário. 

            Nossa vida parece ser um processo de contínua preparação para a solidão final quando, sozinhos, partimos e aqui deixamos tudo e todos. É um processo pelo qual todos estamos passando, ou passaremos. Mas essa Solidão Crescente pode ser percebida com sensibilidade pelos mais moços, ainda hoje, menos solitários, Pode ser preenchida o quanto pudermos por nossa presença, nossas vozes, pelo nosso toque físico carinhoso, pela nossa escuta respeitosa com a sabedoria dos mais vividos, com valorização e gratidão pelos que, até aqui, nos acolheram e acompanharam.