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sexta-feira, 15 de junho de 2018

A DOR QUE NÃO ACABA



          Ela não acaba.  A perda passou, mas a dor não acabou!  Às vezes pensamos que, finalmente, passou, adormeceu! Então, com o mesmo cuidado que temos para não acordar uma criancinha de sono muito leve, ficamos muito cuidadosos e com atenção para não acordar essa Dor.  Silêncio! Procuramos distrações, para não despertar essa dor que não acaba. Atenção para não lembrar, não relembrar, porque, se essa dor acordar, liberamos, num grito rascante, todo o horror que está abafado, contido, sufocado, dentro de nós.

            E é tão frágil esse “equilíbrio” a que nos impomos! Num repente, uma música, um doce, uma comidinha, um filme...  Um texto ou uma história compartilhada, logo tão reconhecida, quaisquer  detalhes do dia, acordam a agonia dessa Dor dentro de nós! Sobrevêm, gritando, as boas lembranças do que ficou perdido, atropeladas pela mágoa das lembranças ruins, dos momentos mais difíceis.  Somos subjugados pelas recordações, pela nostalgia e pela tristeza, na melhor das hipóteses, mas, sobretudo, pela mágoa, pela raiva, pelas culpas, pelo ressentimento com a vida, pelo antigo desespero! Como tudo revive tão forte!

           Pensei que havia superado questões de merecimento, castigo, comparações de destino... Questões de fracasso, da vida, de Deus, mas nesses momentos de “rasteira” dessa Dor, tudo volta de forma revolta, confusa, e apenas muito, muito, doída! Racionalmente já entendi, aceitei, continuei... Mas em meu coração preciso de mais tempo, na verdade de um tempo que parece não tem fim.
Hoje, nesse momento em que algo me arremessou ao passado e à Dor, precisei parar e chorar. Depois, conversei com minha dor, nós nos explicamos, e aos poucos fomos  aquietando-nos, pelo menos até um novo momento de caída no passado, até uma nova “mordida” nesse nervo, para sempre exposto, em minha alma. 

Mas estou aprendendo. Volte para o Agora! Ocupe-se com o Agora!  Segure-se em Deus, porque Ele vive no Agora! E então, mais sacudida e renovada, viva melhor esse Agora. É o que podemos!


sexta-feira, 8 de junho de 2018

DAR E RECEBER CARINHOS



            O correr do tempo, com constantes amuos, pequenas e grandes mágoas, filhas de eternas e tolas expectativas, vão, muitas vezes, nos isolando uns dos outros, nos tornando aguerridos, defensivos afetivamente. No entanto, aos poucos,  nos sentimos carentes do calor suave e maravilhoso da ternura e do carinho. E é na relação com as pessoas mais especiais em nossa vida que essa carência se faz mais sentida e doída. É um filho “difícil”, um irmão distante, pais idosos, tristes e irritadiços e companheiros “cabreiros”, desconfiados, numa parceria amuada, até já meio falida...  Todos ficaram distantes e ressentidos por muitos ditos e não ditos... 

         Foram algumas dessas  pequenas ou grandes lutas, continuadas, que nos distanciaram, azedando nosso amor e nos levando a uma divisão interior entre o querer  e o não querer mais a  proximidade afetiva.             Já não conseguimos dar nem receber carinho daquela pessoa tão querida! Nossas relações ficaram secas... Caminhamos juntos como retirantes em solo árido!  É muito estranho e triste!

Podemos ficar analisando no resto de nossas vidas em que pedaço do caminho nós perdemos o jeito de sermos carinhosos uns com outros, mas então  descobriremos que essa secura foi apenas se instalando, enquanto nós, atentos ao controle um do Outro, em cobrar e permitir demais, nem percebemos. Tento analisar:

           Dar carinhos foi ficando cada vez mais difícil por conta de meu orgulho, de não querer ceder, de não querer parecer perder?  De minha insegurança, do meu medo de parecer boba e piegas... De minha vergonha, se não for aceita uma aproximação ? Da raiva que alimento ao ficar revivendo ocasiões negativas? Da mágoa que mantenho viva ao relembrar decepções?    Do medo de parecer frágil e deixar o outro abusar? Do ressentimento contínuo, nascido de todo esse modo de pensar, sentir e agir?
E receber carinhos? Será que ainda sei?  Será que ainda tenho abertura afetiva para “essas bobagens”? Será que sinalizo essa abertura ao outro? Será que estou muito desconfiada e insegura para aceitar seus carinhos? Será que mantenho distância e aparento frieza como forma de me defender do “perigo” de demonstrar e receber Amor nessas relações?

Mas,” Que falta que faz um carinho! Que falta que faz um xodó”! O frio e a solidão que sentimos, vamos tentando, muitas vezes, compensar com bichinhos e criancinhas, que nos amam, sem que precisemos  deles nos defender!  Quero trazer mais carinho para minha vida? Então acredito que preciso ousar mais, buscar mais coragem para reaprender a amar em relações já tão ressecadas...   Preciso ir diluindo meus medos, meu orgulho, embora  respeitando meu tempo e meu espaço... Posso ir sinalizando meu aproximar através de um tímido sorriso, um riso aberto, um toque ligeiro, um olhar cúmplice e amigo, um ouvir com atenção, mais sorrisos... até que um dia, talvez, um abraço, um afago, um carinho... 

           Esse é um desejo meu, uma necessidade minha! Preciso estar ciente de que o outro pode custar muito, ou não aceitar, mas de qualquer modo nossas relações ficarão, certamente, mais leves!

sexta-feira, 1 de junho de 2018

ASSÉDIO CONSENTIDO



        O assédio se caracteriza pela tentativa de usar o Outro para satisfação das próprias necessidades, desejos, carências. É diferente da agressão de ocasionais investidas  covardes e oportunistas, porque o assédio é de uma ação continuada, insistente. No entanto, o que os iguala é o egoísmo, o total desrespeito ao Outro, no uso e abuso de suas carências físicas, psicológicas, emocionais.  Ele pode acontecer em qualquer relação: de trabalho, familiar, etc. O assediador explora buscando vantagens materiais (sexo, dinheiro, trabalho...) ou psicológicas (delegando responsabilidades, “alugando” o emocional do outro, seus medos e fantasias, suas crenças limitadoras...) Para isso ele adula, manipula, mente, se insinua, oprime, amedronta,  insiste...

         Toda  essa ação nos indigna, nos queixamos, nos magoamos, brigamos, ofendemos e, às vezes, até denunciamos, mas precisamos antes, honestamente, reconhecê-la em cada uma de nossas relações e entender qual nosso papel.  Cabem perguntas a nós mesmos:                   Que atitudes minhas configuram meu consentimento  aos insistentes assédios que sofro, principalmente em família, mesmo “por amor”?  Por que permiti, ou ainda permito, essas formas de assédio comigo? O que quero ou espero “ganhar” em troca? Às vezes mudo até de abusador, mas permaneço vítima, abusada e assediada! 

           Por que? É o medo de enfrentar reações e precisar sair de nossa zona de “desconforto” já conhecida? É o medo de perder o controle sobre o Outro, controle que, na verdade, nunca tivemos? É o medo da rejeição, de ser abandonado, de ser preterido, de ser menos valorizado e amado? É uma culpa absurda por não ser tão boa e perfeita quanto acreditava que devia ser? É o medo de descobrir quem sou, de ousar ver até onde posso ir?   

         Como é difícil cortar abusos, não me deixar assediar, estabelecer limites aos outros e ao mundo, quando ainda me vejo tão carente e dependente de aprovação e de amor ! Mas permanecer vítima não nos traz ganhos, só sacrifícios, humilhação, raiva, vergonha, auto rejeição, auto imagem baixa... Olhar para nós mesmos, reconhecer  nossas motivações, nossos medos, nossa inércia, nossas crenças limitadoras, nossos sentimentos e nossas  atitudes de cumplicidade, nos tornará Conscientes de que somos os únicos responsáveis por nós mesmos, pelo modo como nos tratam, pelo modo como nos relacionamos conosco mesmos e com os outros. A cada situação de assédio ou abuso reconhecido, não vou culpar o assediador!  Eu é que preciso cuidar de mim!  Um dia de cada vez, com paciência, firmeza e carinho, iremos construindo a Coragem para mudar!

          Em tempo, também cabe a pergunta: Sou só assediado ou também sou um assediador em outras relações?