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segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

A VOCÊ, “MEU” DEPENDENTE QUÍMICO




          Na medida em que nos distanciamos no tempo, na medida em que aprendi a me “desligar” daquela simbiose doentia e mortal, que nos aprisionava, onde nos debatíamos, nos agredíamos e  acusávamos, sempre agarrados, sem aceitarmos um distanciamento que permitisse ver, sentir, entender a nossa humanidade enlouquecida, aprisionada em tanta confusão e dor, posso, cada vez melhor, avaliar e me penitenciar por minha cega  insensibilidade ante a dor e o horror da doença que o torturava.

            Hoje, “desplugados” pela vida, pela morte e pelo entendimento de que somos seres individuais, com escolhas e suas consequências individuais, com dons e doenças individuais, com responsabilidade de aprendizado individual, posso, enfim, ver, chorar e respeitar a Dor de quem tanto sofreu, de quem tanto quis se libertar, de quem tanto quis ter mais força, brilho, ser mais  amado, valorizado... e  dor de quem se desesperou ao se descobrir,  cada vez mais, julgado, condenado, aprisionado, sem saída... 

            Um dia, parei de falar e pude ouvir e “ver”, em meio a tanta agonia, um brilho de esperança em seu olhar tão humilhado e machucado... E você conseguiu dizer “ Eu tenho fé que vou ficar bom!”  Apesar disso, quantas idas e vindas, caminhadas, descaminhos, caídas, recaídas...  Quanta dor, quanta humilhação, quantas raivas, tristezas, culpas e vergonhas escondidas, desespero, desesperança... E, apesar de tudo, quanta coragem e persistência! Sempre em novas tentativas, novos recomeços...

            Hoje, cada vez mais, pressinto, e até ouso pensar que sinto, sua dor! Antes, eu só sentia a minha dor! Dor pela perda dos meus sonhos e expectativas com sua vida, dor pela vergonha e culpa por ter falhado em minha “missão impossível” de moldá-lo, modificá-lo e “salvá-lo”, pela minha incapacidade de ouvi-lo, de acolhê-lo  com suas dificuldades, de amá-lo como você era... Só sentia frustração, raiva, mágoa, ao me ver arrastada naquele turbilhão, que eu negava me pertencer. E eu só me debatia, acusava, cobrava... aumentando a confusão e a agonia de todos nós!

            Hoje, respeito cada vez mais a coragem necessária para, apesar de tudo, não desistirmos. Sua coragem para insistir, um dia de cada vez, buscando sua liberdade física, emocional e mental, ancorado em uma aliança espiritual com sua Luz de Origem e em seus Companheiros  Anônimos.  Hoje, respeito e me compadeço daqueles que ainda não encontraram, ou mesmo buscaram, um caminho de libertação.  Hoje, respeito as marcas  eternas, as cicatrizes deixadas nos familiares que, mercê de tantas dores, aprenderam um novo modo de amar, vivendo e deixando viver, deixando florescer, aqueles que  tanto sofriam.  Hoje, respeito, com compaixão, a imensa dificuldade dos familiares que ainda não conseguiram se libertar e libertar (para deixar crescer) aqueles que amam com tanto desespero, aqueles todos os que estão se afogando nesse turbilhão de dores e ainda não sabem como sair!

            Toda Dor tem um propósito em nossa caminhada. Para nós, em quaisquer papéis, que vivenciamos a agonia, o horror, a Dor da dependência química, fica a certeza que nos foi oferecido um desafio e uma oportunidade.  Fica a certeza que um Poder Maior nos acompanha em nossa luta e Sua Luz em nós nos fará ir superando os obstáculos e transformando nossa humanidade, ainda tão menina.

            Hoje, quando  sou invadida pela lembrança de nossas agonias e lutas, quando sinto e revivo as suas dores, ainda sofro tanto! Mas procuro me consolar com nosso amor, agora tão livre, real e bonito... E por nossa coragem e persistência nessa caminhada que nos levou, a todos, bem mais longe e mais alto.
Te amo... 

8 comentários:

  1. LINDA MENSAGEM! Só mesmo com a ajuda de um Poder Superior podemos suportar tantas idas e vindas, tanta agonia e o horror da dependência Química.

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    1. Obrigada, Célia, por compartilhar nossos sentimentos. Beijos.

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  2. Respostas
    1. Olá, Paulo! Obrigada por me entender nesse texto! Abraços.

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  3. Muito bom o que a Sra. Escreve.
    Isso me emociona. Todo D.Q quer houvir isso do familiar. Expressar sentimentos compreedendo a dor dele. E preciso tbem encontrar uma trinca no ego.
    Talvez falar de sentimentos seja um caminho.
    Até breve. E que o P.S. nos abençoe

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